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Capitulo dois - A Primeira Viagem de Comboio de Ricardo
Nasci numa pequena vila a norte
de Portugal, em plena tempestade de neve. O meu pai sempre gostou de dizer que
nasci num dia de sorte. No Japão, a cor branca é símbolo de boa fortuna, e essa
crença acabou por se enraizar na nossa família. Assim, o dia do meu nascimento
passou a ser lembrado como um dia afortunado.
Cresci numa família tipicamente
tradicional: pais amorosos, dois irmãos, avós de ambos os lados, uma mão-cheia
de tios e tias… uma verdadeira multidão familiar. A minha avó conquistou o
coração do meu avô, e foi assim que começou a linhagem dos Brancos. O meu
irmão, Francisco, é o génio da família. Já a minha irmã... bem, foi uma
“desgraça”, aos olhos de alguns, porque se divorciou após dois anos de
casamento. Quanto a mim, sou o que sou — uma bola redonda que acabou por se
tornar desenhador de Banda Desenhada.
– Já ouviste a Sexta Sinfonia
de Beethoven? Não? Pois devias! – costumo dizer. – É a mais bonita que ele escreveu para o
mundo.
Mas enfim, a minha história de
Natal não é sobre música, nem sobre desenho, mas sim sobre a minha primeira
viagem de comboio. E, honestamente, se eu não conhecesse a minha família, diria
que precisava ser inventada — de tão peculiar que é.
Tudo começou em meados de
novembro. A minha família, já cansada de me levar para todo o lado, decidiu
numa dessas reuniões de domingo que, aos 38 anos, eu tinha finalmente de
aprender a conduzir.
– Já não és nenhum idiota, tens
que aprender a guiar! – disseram.
Talvez tivessem razão.
Passei no exame teórico, é verdade, mas na prática... deixemos apenas dito que
o meu instrutor ainda deve ter pesadelos. Apontando-me o dedo, exclamou:
– Meu caro, você ao volante
é um verdadeiro perigo na estrada!
Foi então que o Francisco, com o seu
jeito de génio prático, sugeriu:
– Já que não consegues guiar, por
que não viajas de comboio? Assim vês o país, conheces
gente e não matas ninguém!
A ideia soou-me maravilhosa.
Sempre sonhei viajar num comboio como o Hogwarts Express. E assim foi: comprei
um bilhete e parti, pela primeira vez, rumo ao desconhecido, de comboio.
O destino? Uma pequena cidade no
norte, onde o Natal parecia saído de um postal antigo: ruas cobertas de neve,
luzes penduradas em cada janela e o cheiro a castanhas assadas no ar.
Chamava-se Vila de S. Francisco — o meu lar de infância.
No compartimento, sentei-me junto à
janela. O comboio deslizava pelos campos gelados, e as luzes cintilantes das
aldeias passavam como estrelas fugidias. Do outro lado da carruagem, uma
criança de cachecol vermelho olhava fixamente para mim, segurando uma pequena
estrela dourada nas mãos.
– É para o pinheiro de Natal lá de
casa – disse-me, com um sorriso tímido.
– Uma estrela bonita – respondi. –
Sabes, na minha família também há uma tradição com uma estrela...
E contei-lhe como, todos os anos,
o mais novo punha a estrela no topo do pinheiro. O miúdo escutava com olhos
curiosos, como se eu estivesse a narrar uma lenda antiga.
Quando o comboio parou em Vila de
S. Francisco, a neve caía suave. Desci com a mala na mão e o coração cheio de
lembranças. À distância, vi a minha mãe à porta de casa, embrulhada num xaile,
e o meu pai, fiel à tradição, a lutar com um enorme pinheiro.
– Hoje é 1 de dezembro! – gritou
ele, com aquele sorriso travesso. – Dia de fazer o pinheiro!
Entrámos todos, rindo e
resmungando como sempre. O cheiro a bolo de mel enchia o ar. Quando chegou a
hora da estrela, o meu pai olhou em volta e suspirou:
– Falta-nos uma criança para pôr
a estrela no topo...
Nesse instante, lembrei-me do
rapaz do comboio, da estrela dourada nas suas mãos. Abri a porta e vi-o, do
outro lado da rua, com a mãe. Aproximei-me e perguntei:
– Queres ajudar-nos a
terminar o nosso pinheiro?
Ele acenou entusiasmado. E,
pela primeira vez desde que os netos tinham crescido, o pinheiro da família
Brancos voltou a brilhar com uma estrela posta por uma criança — como manda a
tradição.
Enquanto todos aplaudiam,
percebi que aquela viagem de comboio não me tinha levado apenas de volta à
minha terra, mas também ao verdadeiro espírito do Natal: partilhar, acolher e,
acima de tudo, acreditar que as melhores histórias nascem dos pequenos gestos.
E foi assim que eu o Ricardo, o
desenhador trapalhão, encontrou no comboio a sua mais bela inspiração para uma
história de Natal.

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